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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Memories


Tenho escutado as músicas mais lindas e as cantado para as paredes. São quase perfeitas, e só os tijolos da minha casa tem recebido essas declarações. Insistem em sonorizar as memórias, e eu canto mais alto quanto puder que “beijo teus pés e me perco entre seus dedos” e berro alto Chico Buarque toda vez que toca “o meu amor”, sentindo em cada verso que ele “tem um jeito manso que é só seu”. Ah! Quem me dera ter um amor. Tenho aquilo que chamam de mal-entendido, mal-feito, mal-amor. Com sorte, antigamente eu provava dele twice a month, hoje nem isso. Tenho sido invadida por uma volúpia de falta de sorte carregada de desamor.
Há semanas – quase meses – desejo a descoberta de um novo destino para as minhas cantorias. Eu não desfruto de uma boa mira. Geralmente o meu tiro sai pela culatra e não vejo surgir efeitos. De repente incorporo Maria Rita e começo a cantar “conta outra, nessa eu não caio mais. Já foi-se o tempo em que eu pensei que você era um bom rapaz” e desejo que esse meu grito alcance o outro lado da cidade (ou talvez outra cidade) atingindo aquele ser distinto. Hora ou outra dá uma canseira, dou trégua e me guardo no silêncio. Deixo passar uns dias, talvez semanas, até um mês, mas sempre acabo voltando a cantar e gritar, e tudo o que eu contive durante a ausência do meu cantarolar, eu simplesmente triplico pra poder desabafar.
Ás vezes funciona. Não é toda tentativa de desaguar a dor que surte efeitos. Solto gemidos e soluços antes de dormir, a água salga o travesseiro, e nem sempre o sono ameniza a saudade. Saudade? Que é isso mesmo? Parece mais uma forma de tortura, assim como querer cortar a própria carne com faca cega. Já provei de outro doce pra ocupar a boca e quem sabe o coração, mas não adiantou. Fui ao doutor, ele diagnosticou lonjura, carência e preguiça de um novo gosto. Lonjura porque o bem que eu quero está longe não só da cidade, mas no meu passado. Carência porque amor só de parente e de amigo não resolve carma de mal-amado. Preguiça de um novo gosto porque é difícil largar do antigo.
Enquanto isso, continuo exaltando a vida, porque são nas cristas e nos vales em andamento que o futuro vira presente e o presente se torna passado. Logo, percebo que de nada vale almejar tanto as pessoas e os acontecimentos se não lhes atribuir o devido valor. Reparo nos detalhes: sons, toques, cores, brisas, cheiros, texturas, olhares. Guardo tudo na memória de elefante, porque nada volta e nada conseguirá transformar uma lembrança em realidade, por melhor que ela seja. Pego as boas e as ruins, construo meu patrimônio – minha história – e ergo no invisível meu muro de lamúrias e agradecimentos, ingredientes infinitos e que até hoje guardo dessas andanças e vivências, porque a luta continua e as memórias acumulam.



"A sua lembrança me dói tanto. Eu canto pra ver se espanto esse mal, mas só sei dizer um verso banal. Fala em você, canta você, é sempre igual.
Sobrou desse nosso desencontro um conto de amor sem ponto final. Retrato sem cor jogado aos meus pés. E saudades fúteis, saudades frágeis, meros papéis. "
Chico Buarque

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Confesso

        Sou meio assim, meio sei lá, insatisfeita, dramática, chorona, sensível – principalmente na TPM. Algumas vezes justifico meu status psicológico instável ao dizer que sou de gêmeos ou então porque eu estou realmente na TPM. Sou um pé no saco.

     Geminianas são conhecidas por serem “todas em uma só”, podem acordar distribuindo sorrisos pela casa, vizinhança, aula e/ou trabalho, trocar bruscamente por lágrimas durante a tarde e, repentinamente, à noite terem muito amor pra dar. Incrível como isso me descreve perfeitamente, e olha que eu nem era fissurada em astrologia até ler sobre o signo de Gêmeos para as mulheres. 

       É louco acreditar que às vezes me descubro em coisas tão bobas, simplórias, comuns. Acho inacreditável como filmes, obras, citações ou até mesmo aquelas músicas remosas me descrevem melhor do que eu mesma. Para isso, só existe uma hipótese: ainda estou me apresentando para mim, descobrindo o que gosto em mim, descobrindo o que quero de mim, descobrindo o que será de mim, e todas essas coisas a gente só descobre indo.

     Normalmente misturo assuntos – uma hora estou repassando a receita do meu bolo de chocolate, quando, de repente, começo a falar do meu ex-namorado que ainda me deixa louca – e isso deixa quem está por perto sem entender nada. Eu misturo tudo, esse é o problema. Gosto de mesclar tudo o que se passa na minha cabeça, e até eu me perco nessa bagunça. Faculdade, vontade de mudar de faculdade, desejo de ir embora, família, relacionamentos, amizades, comida, bebida, sacanagem, tudo vira um mingau só. Deve ser porque pra mim tá tudo interligado. É como se fosse impossível falar de rock e não desembocar em uma declaração de que eu preciso renovar meu guarda-roupa.

      São devaneios, eu sei, mas sem eles não seria eu. Gosto de ser complicada e despertar a curiosidade alheia. Gosto de ter a habilidade de deixar um quero mais. Tenho imaginação fértil e um pouco de audácia. Dou respostas atravessadas e nem sempre meço as palavras. Sou má filha, má influência, mas não má pessoa. Talvez um pouco sequelada com todas as minhas loucuras. Todavia, quando alguém me pergunta o que eu quero pra essa vida, eu só tenho a responder: SER FELIZ!