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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sobre pensar e pagar análises

Andar de ônibus tem vantagem, sabia? Não me refiro ao custo baixo ou ao discurso de que é uma solução para o aquecimento global porque diminui a quantidade de veículos nas ruas (o que ocasionalmente também ajudaria na economia de tempo por causa do trânsito), mas voltar pra casa escutando o que bem entender nos fones e de quebra pegando um ventinho na cara, é ótimo pra pensar. Durante o dia a gente chega atrasada na aula, perde prova, vai mal do estômago, da perna, fica com dor de cabeça, aguenta amiga depressiva, gente enjoada, grosseria alheia e ainda se aguenta quando tá estressada. É puxado.
Mas larga o carro, a moto, a bicicleta e pega ônibus por um dia. Dá pra analisar a vida muito melhor depois de olhar de outro jeito. Dentro dele tem preto, índio, branco, amarelo, azedo, perfume barato, perfume ruim, gente escandalosa, gente discreta, cabelo pixain, cabelo escorrido, careca, galera estranha e tudo mais. Na verdade, pode-se dizer que tem de quase tudo. Você olha pr'aquilo que tem lá, mas não olha pra si. Dá de ver os defeitos de todo mundo e até se colocar como melhor que eles, mas cheirar da própria caatinga que é bom ninguém quer.
A gente - porque ninguém é perfeito - tem essa mania de julgar os outros e fazer de conta que o resto é menor do que a gente, arriscando salientar que ali a inteligência é uma ervilha e aqui uma pêra bonitinha. Novidade: nessa feira, frutas e verduras um dia morrem. Guarda isso. 
Com essa mania, perde-se a capacidade de analisar os pensamentos decorrentes de nós mesmos. Talvez por isso psicanalista, psicólogo, teraupeuta e o escambal arrancam tanto dinheiro dos nossos bolsos já furados. Voltando pro onibus, você vai reparando na loira blondor ali sentada esperando chegar na sua parada e se questiona porque ela não foi no salão dar uma melhorada nesse cabelo de empreguete, ou então no cara fedorento que passou ainda agora com a roupa do trabalho toda suja e suada - será que não dava pra pelo menos passar um deosodorantezinho? Olha, sinceramente, acho que eu deveria ser psicanalista ao invés de cursar gestão publica e desenvolvimento regional. Whatever. Eu também to analisando melhor a vida dos outros ao invés da minha. Eu adoro decifrar os outros. Talvez também seja por isso que evitar contato íntimo com gente recém conhecida é tão forte. Depois de descobrir muitas pessoas, a gente preconiza o estilo de cada tipo delas. Meio caminho andado pra saber se dá pra se aproximar ou não.
Saber disso é bom, mas nem tanto. As desconfianças aumentam, nosso escudo sobe, fica cada vez mais difícil de abrir o círculo de convívio, e a probabilidade de arranjar um parceiro piora muito mais. [Ter amigos homens + saber dos seus segredos + conhecer a realidade = 4ever alone]. Talvez também seja por isso que eu nego e dispenso todas as oportunidades de viver um novo romance, daqueles de encher o peito de amor, planos e blá blá blá. Tô pensando até em ir no psicólogo, isso tá se tornando um sério problema.
Olha só como a gente precisa não só olhar pro outros, mas pra si mesmo. Quando não cumprimos com nosso auto-descobrimento, pagamos uma pessoa que estudou pra fazer isso por nós. Que vergonha. Pra tentar amenizar a coisa, eu entro no ônibus, coloco os fones, ouço minhas músicas e, além de reparar nos outros, fecho os olhos pra tentar imaginar como eles também estão me vendo: só alguém voltando pra casa ou mais uma pensadora que não consegue descobrir sobre si mesma?

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